"Cumpre a nós, povos nascidos fora do peso das tradições seculares, estudar a habitação do homem nu, do homem do futuro, sem deus, sem propriedade e sem matrimônio." Flavio de Carvalho

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  1. Casa do Corpo Nu Luz del Fuego

     

    Projeto de investigação sobre a Luz del Fuego, o corpo nu e a Ilha do Sol que resultou na fundação da Casa do Corpo Nu Luz del Fuego em 2015, nas ruínas do lugar onde Dora Vivacqua ou Luz del Fuego fundou o primeiro clube naturista do Brasil na Ilha do Sol, baía de Guanabara. A partir do trabalho A Cidade do Homem Nu de Flavio de Carvalho (1930), o trabalho propõe pensar o corpo nu e a preacariedade da ocupação do espaço como forma de dissidência `ss lógicas hipercapitalistas de apoderamento e captura dos corpos. VISITE A ILHA DO SOL. FIQUE NU.

    Dora Vivacqua, feminista e bailarina mais conhecida como Luz del Fuego, perturbou a conservadora sociedade brasileira trazendo a prática do naturismo para o Brasil nos anos 50.

    Ilha do Sol é o nome criado por Dora para batizar esta pequena ilha na Baia de Guanabara no Rio de Janeiro, convertida por ela no primeiro clube naturista do Brasil e frequentado por estrelas como Ava Gardner e Steve McQueen. A nudez era obrigatória e total na ilha e o acesso era negado a quem não estivesse disposto a ficar nu. Conta a lenda que a atriz Jayne Mansfield foi uma das barradas.

  2. No dia 14 de novembro de 2016 em São Paulo, SOLO SHOWS, dentro do projeto Esponja de Yusuf Etiman, se transformou na Casa do Corpo Nu Luz del Fuego, um espaço de convivência do corpo nu para narrar as histórias ao redor do corpor, de Luz del Fuego e a Ilha do Sol. Guilherme Altmayer visitou a ilha em diversas ocasiões e apresentou a documentação de sua recente intervenção-homenagem a Luz del Fuego. Mostramos também o raro filme A Nativa Solitária (30') sobre a trajetória da artista e sua relação com o corpo nu, os raios do sol e a necessidade de um retorno ao contato direto com a natureza. 

  3. A Nativa Solitária

    1954. Direção: Francisco de Almeida Fleming. 

    Documentário que narra a relação de Dora Vivacqua / Luz del Fuego com o naturismo, o corpo livre e os raios de sol. Dora foi pioneira em trazer o naturismo para o Brasil nos anos 50 e fundou o primeiro Clube Naturista Brasileiro na Ilha do Sol na Baía de Guanabara.

    Agradecimento especial a Guilherme Larrosa pela dedicada assistência e ideias mirabolantes.
    Agradecimento a Nataraj Trinta da N30 Pesquisas pela colaboração na pesquisa.

  4. O presente texto propõe uma breve reflexão sobre o corpo nu e práticas de naturismo a partir de uma intervenção artística realizada na Ilha do Sol no Rio de Janeiro, local sede nos anos 1950 do primeiro clube naturista do Brasil, fundado pela artista Luz del Fuego. O resultado desta intervenção foi apresentado em São Paulo no espaço de arte Solo Shows[1], em um encontro que criou um espaço de convivência de corpos nus reunidos para narrar histórias sobre o trabalho de Luz del Fuego e a Ilha do Sol através do que poderíamos chamar de uma ação performática coletiva. 

    A Casa do Corpo Nu

    No dia 23 de outubro de 2015, uma intervenção artística na Ilha do Sol marcou a refundação simbólica daquele que foi o primeiro clube naturista do Brasil agora sob o nome de Casa do Corpo Nu Luz del Fuego, em homenagem a sua fundadora. Foi nesta pequena ilha cedida pela Marinha, que Dora Vivacqua ou Luz del Fuego residiu e fundou o clube naturista em 1954. A dançarina recebia adeptos do naturismo para celebrar o corpo nu e desfrutar dos benefícios da natureza deslumbrante das águas da baía de Guanabara - então ainda pouco poluída - e da luz do sol, considerado por ela um ingrediente essencial para a saúde e o bem-estar. Só tinha acesso à ilha quem se dispusesse a deixar todas as suas roupas na entrada. Conta a lenda que a atriz Jayne Mansfield foi uma das pessoas barradas na entrada por se negar a despir (MENEZES, 2011). O clube, que também ficou famoso pelos bailes de carnaval que promovia, recebeu também estrelas do cinema como Ava Gardner e Steve McQueen (MENEZES, 2011).

    O clube funcionou de 1955 a 1961, período em que Luz del Fuego também tentou fundar um partido político - o Partido Naturalista Brasileiro – sob o lema “menos roupa e mais pão”, mas foi impedida por membros da sua família, resistentes às suas ideias muito liberais para a época (SILVA, 1982). Luz del Fuego seguiu residindo na ilha e praticando o naturismo, mesmo após o encerramento das atividades do clube, acompanhada apenas de seu fiel escudeiro, a bicha Hidegarde (SILVA, 1982). Pouco se sabe sobre a razão do encerramento das atividades do clube, mas alguns relatos dão indícios de que seria porque ela estava envelhecendo e já não lhe interessava mais exibir seu corpo em público. Luz era vegetariana e pregava uma vida saudável, defendendo que a nudez livrava a mente de vícios e práticas nocivas à saúde.

    Em 1968, sete anos após o fechamento do clube, Luz del Fuego e seu ajudante Hildegarde foram brutalmente assassinados na ilha por dois irmãos residentes na ilha de Paquetá, vizinha a Ilha do Sol porque Luz vinha denunciando suas práticas criminosas. O crime se deu com requintes de crueldade. Luz e Hildegarde tiveram seus órgãos internos removidos e o espaço preenchido com pedras para que seus corpos afundassem no mar. Os corpos foram encontrados somente duas semanas após o crime (MENEZES, 2011).

    Da ilha do sol resta hoje apenas a palavra SOL gravada em uma grande pedra visível ao se aproximar da ilha, além das ruínas de uma das casas que fora construída pela artista. As paredes grafitadas, os sinais de queimado e o lixo deixado para trás dão pistas de que o espaço é frequentado por poucas pessoas provenientes de regiões próximas, em atividades de lazer de fim de semana. Não restou qualquer indício de que um dia funcionara ali nos anos 1950 um badalado clube de socialização naturista.

    O objetivo da intervenção artística foi o imprimir marcas nas ruínas para indicar que um dia ali residiu Luz del Fuego e funcionou o primeiro clube naturista brasileiro. Utilizando a técnica de impressão por estêncil, na mesma grafia da palavra SOL, foram impressas uma série de mensagens nas paredes da casa: boas vindas a ilha do sol, a logomarca da refundação Casa do Corpo Nu Luz del Fuego – desde 1954, indicações de entrada e saída e instruções para que os visitantes ficassem nus antes de adentrar o espaço. Nas paredes do interior da casa, foram aplicadas as frases “Sem Pudor” e “Seu corpo, suas regras” referenciando o movimento feminista atualmente em curso no Brasil para estabelecer um diálogo com o trabalho da mulher que foi uma das grandes feministas brasileiras. Além da refundação da casa-museu-memória, o projeto se expande para registros em mapas e guias turísticos da cidade do Rio de Janeiro na internet, afim de que o trabalho de Luz del Fuego e a prática do naturismo se tornem motivação para visita ao local.

    Fique nu

    Em novembro do mesmo ano, um encontro foi promovido no espaço Solo Shows, em São Paulo, para apresentar a documentação da intervenção artística, experimentar o corpo nu e conversar sobre o trabalho de Luz del Fuego. Assim como na ilha do Sol, a nudez era mandatória. Uma cortina improvisada separava o hall de entrada da sala principal, criando um espaço de convivência. A obrigatoriedade do nu fez com alguns desavisados desistissem de participar do encontro, mas a restrição era necessária para evitar que apenas algumas pessoas ficassem nuas e se estabelecesse ali uma hierarquia entre pessoas vestidas e nuas.

    Em uma das paredes da sala, uma carta náutica da baía de Guanabara indicava a localização geográfica da ilha. Em outra parede, um quadro mostrava algumas fotografias com registros da intervenção, e ao lado a impressão em estêncil dos dizeres “Casa do Corpo Nu Luz del Fuego: desde 1954”, no mesmo formato que o impresso na ilha. Em um dos cantos da sala um vídeo[2] era projetado. Entremeado com cenas da própria Luz del Fuego, o vídeo apresentava a Ilha do Sol como se encontra hoje, as ruínas da casa após a intervenção, bem como os frequentadores do clube desfrutando das belezas da ilha e se banhando nas águas da baía. Em dois outros momentos foi também projetado em uma grande tela o documentário dirigido por Almeida Fleming, A Nativa Solitária (1954)[3], sobre o trabalho pioneiro de Luz del Fuego como dançarina e suas práticas naturistas.

    Estabelecia-se ali um espaço de convivência naturista entre corpos curiosos por experiências e pelo nu, em que artista, curador e participantes exibiam seus contornos, genitálias, marcas e imperfeições. O constrangimento inicial logo deu lugar a risadas altas e despreocupadas graças a cervejas geladas e corpos nus espalhados pela pequena sala protegida onde falamos do corpo, de gênero, sexualidade, de arte, do tempo, do sol e claro, de Luz del Fuego. Uma experiência vivida por pessoas com certa pré-disposição ao nu, que compartilham traços culturais que não podem ser ignorados porque são determinantes para marcar a variação entre os diferentes processos civilizatórios em cada camada social: éramos (quase) todos pessoas brancas, de classe media, devotos das práticas da arte contemporânea, praticando o que se entende por naturismo enquanto uma prática que aos olhos de Jean-Luc Nancy (2015) em Corpo, fora não passa de uma doutrina: “em numerosos casos, o sufixo ismo representa uma máquina de enrijecer, de deformar, enfim, de trair uma noção, um nome, um espírito” (NANCY, 2015 pag. 11).  

    Inicialmente expostos e vulneráveis, logo nossa nudez se tornou trivial principalmente porque seguíamos vestidos, vestidos de nossas próprias peles, nossos discursos, gestos, escondendo também através de nossos contornos e dobras outras partes e orifícios do corpo. Nossos anus não estão visíveis, tampouco o interior de nossas bucetas, muito menos o períneo. Nossa linguagem corporal seguia sendo a de pessoas vestidas, recatadas e era preciso que seguisse assim, em um nu contido, pois qualquer expressão mais sensual dos corpos ali presentes poderia levar à geração de sentidos outros e ao estabelecimento de um outro tipo de relação e relações de poder entre os presentes.

     Se somos o único animal que além da razão conhece a nudez, faz pouco sentido a ideia de que a partir da prática do nu seja possível um retorno a um natural que precede a vestimenta, como defendia Luz del Fuego e ainda defendem os praticantes do naturismo. Por detrás da cultura não há natureza e é justamente isso que o estado nu revela (NANCY, 2015). Ainda segundo a autora, pensar também que a nudez só é possível na presença do outro, aos olhos do outro e no quanto ela é infinita em suas possibilidades de desnudamentos, em uma relação direta com o desejo infinito (NANCY, 2015). Não existe uma verdade a ser exposta a partir de um corpo despido de roupas, estas próteses que utilizamos para proteger nossas peles de trocas térmicas bruscas, poluições, sujeiras. O corpo nu não oferece qualquer tipo de relação a uma forma com relação a ele mesmo, o que ele faz é expor a ideia de verdade para atestar sua impossibilidade (NANCY, 2015).

    Desmistifica-se, assim, o ideal defendido por Luz del Fuego de um retorno a natureza a partir do corpo desprovido de roupas para pensar um corpo que mesmo nu está longe de ser um corpo livre. A prática da nudez pode ter em si mesma pouco de libertador, uma vez que que a eleição do corpo como investimento do poder, tal qual sugere Michel Foucault, assume a forma de controle-estimulação: “fique nu, mas seja belo, magro e bronzeado” (FOUCAULT, 2011 pag. 147).

    O corpo aprisionado em sua própria pele e que, no modelo cultural ocidental é docilizado e coberto de pudores, em um processo de adestramento que ultrapassa as fronteiras da superfície da pele para atravessar nossos órgãos, orifícios e entranhas.

    A prática da nudez, o naturismo praticado por uma ínfima parcela de ocidentais (aqui entendidos como não ameríndios) é cerceada, controlada, concedida desde que se mantenha longe de olhares de julgamento moral cristão judaico. Em seu trabalho Nudez, Giorgio Agambem (2014) fala de como na famosa narrativa de Adão e Eva a nudez de ambos não era algo considerado vergonhoso. A reviravolta se dá no momento em que têm sua genitália coberta, após provarem do fruto proibido e se tornarem pecadores. A nudez passa então a ser motivo de vergonha, uma representante do gesto pecaminoso.

    Em O processo Civilizador, Norbert Elias (1994) conta como a prática da nudez na sociedade leiga era comum entre europeus até século XVI: “a vista da nudez total era a regra diária. Todos se despiam inteiramente a noite antes de ir dormir e da mesma maneira nenhuma roupa era usada nos banhos a vapor”. (ELIAS, 1994 pag. 165).  Entre os séculos XVII, XVIII e XIX, este comportamento desaparece rapidamente entre as classes mais altas e mais lentamente entre as mais baixas. Assim como o garfo e o lenço, camisolas começaram a ser adotadas, e a vergonha, sentimento praticamente inexistente até então, começa a se expandir no que tange o contato com o corpo (ELIAS, 1994).

    A nudez é assim desde então mantida em cárcere privado e restrita (mais uma vez, falando dos povos ocidentais) à nossas casas, consultórios médicos, bordéis e saunas e em alguns poucos locais públicos designados para o naturismo. Na maioria dos países ocidentais, qualquer manifestação de nudez em local público será considerada crime e enquadrada na lei de atentado ao pudor. No Brasil não é diferente e repetimos aqui um modelo de prática do corpo importado por um colonialismo eurocêntrico, que encontrou lugar no calor do sol dos trópicos com contornos muito diferentes das práticas ameríndias nativas.

    A cultura e nosso entorno social modelam a percepção que temos de nossos corpos, e nos faz acreditar que ele nos pertence e que somos donos da forma como o experimentamos (NANCY, 2015). Privatizamos nossos próprios corpos como base para as ideias de propriedade privada. Assim, o que acontece em um encontro de corpos nus é a configuração de um outro estar no mundo momentâneo, a partir de uma experiência deslocada do dia a dia do vestir, do estar coberto e que nos permite, a partir deste deslocamento visualizar o quanto que mesmo desnudos seguimos vestidos. O corpo, este emissor de sinais permanentes mostra que nossa interioridade também é construída, e a percepção que temos de nossos corpos é igualmente fabricada. Os corpos, todos nus, reunidos naquela pequena sala anulam diferenças marcadas pelas roupas que vestimos, próteses de posicionamento social e afirmação de pertencimentos. Mas isto não nos leva a um estado de suspensão e sim ao desvelar de outras roupagens a partir da linguagem corporal, presentes em modos e gestual, das dobras e diferenças entre nossos corpos.

    Assim como são precárias as instalações da recém fundada Casa do Corpo Nu Luz del Fuego na Ilha do Sol, são precárias também as formas como enxergamos e somos conscientes de nossos próprios corpos e daquilo que nos atravessa. Logo, acredito que o legado deixado por Luz del Fuego é o de estimular uma imersão nas infinitas possibilidades de despir a própria nudez. E assim, sobre as pedras da ilha do Sol, sob os raios do sol e envoltos pelas águas fétidas da baía de Guanabara, promover o encontro de corpos nus que, conscientes da fragilidade dos constructos sociais que nos moldam e controlam, pensam em novas brechas, dobras, orifícios a serem explorados pelos prazeres de um infindável processo de descoberta deste corpo que um dia nos foi ensinado que nos pertence.

     

    Referências bibliográficas

    AGAMBEM, Giorgio. Nudez. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

    FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. São Paulo: Edições Graal, 2011.

    ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.

    NANCY, Jean-Luc. Corpo, fora. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2015.

    MENEZES, Thiago de. A verdadeira Luz del Fuego. São Paulo: All Print Editora, 2011.

    SILVA, Aguinaldo Luz del Fuego. Rio de Janeiro: Morena Produções de Arte, 1982.



    [1] Para mais ver: http://solo-shows.com/

    [2] Para assistir o vídeo acessar: https://youtu.be/kgXx69qC3Ao

    [3] Para assistir o documentário acessar: https://youtu.be/B78W49xdWos